segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Maior Milagre é a Vida Quotidiana


O Maior Milagre é a Vida Quotidiana Se eu procurasse algum milagre no mundo, não seriam os acontecimentos extraordinários que eu chamaria de milagres, mas bem mais o curso normal das estações e a forma invariável das constelações. Se algo pudesse provar que há um deus, seria a ordem e não a desordem, e o retorno constante dos dias e das estações, mais do que o espectáculo de um homem caminhando sobre o mar.



Alain, in 'Considerações II'

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Espiritualismo


Espiritualismo

I



Como um vento de morte e de ruína,

A Dúvida soprou sobre o Universo.

Fez-se noite de súbito, imerso

O mundo em densa e algida neblina.



Nem astro já reluz, nem ave trina,

Nem flor sorri no seu aéreo berço.

Um veneno subtil, vago, disperso,

Empeçonhou a criação divina.



E, no meio da noite monstruosa,

Do silêncio glacial, que paira e estende

O seu sudário, d'onde a morte pende,



Só uma flor humilde, misteriosa,

Como um vago protesto da existência,

Desabroxa no fundo da Consciência.



II



Dorme entre os gelos, flor imaculada!

Luta, pedindo um ultimo clarão

Aos sóis que ruem pela imensidão,

Arrastando uma auréola apagada...



Em vão! Do abismo a boca escancarada

Chama por ti na gélida amplidão...

Sobe do poço eterno, em turbilhão,

A treva primitiva conglobada...



Tu morrerás também. Um ai supremo,

Na noite universal que envolve o mundo,

Ha-de ecoar, e teu perfume extremo



No vácuo eterno se esvairá disperso,

Como o alento final d'um moribundo,

Como o último suspiro do Universo.


Antero de Quental, in "Sonetos"


Esta Velha Angústia

Esta Velha Angústia Esta velha angústia,

Esta angústia que trago há séculos em mim,

Transbordou da vasilha,

Em lágrimas, em grandes imaginações,

Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,

Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.



Transbordou.

Mal sei como conduzir-me na vida

Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!

Se ao menos endoidecesse deveras!

Mas não: é este estar entre,

Este quase,

Este poder ser que...,

Isto.



Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,

Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.

Estou doido a frio,

Estou lúcido e louco,

Estou alheio a tudo e igual a todos:

Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura

Porque não são sonhos.

Estou assim...



Pobre velha casa da minha infância perdida!

Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!

Que é do teu menino? Está maluco.

Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?

Está maluco.

Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.



Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!

Por exemplo, por aquele manipanso

Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.

Era feiíssimo, era grotesco,

Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.

Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —

Júpiter, Jeová, a Humanidade —

Qualquer serviria,

Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?



Estala, coração de vidro pintado!



Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Os Dois Horizontes

 Dois horizontes fecham nossa vida:


Um horizonte, — a saudade

Do que não há de voltar;

Outro horizonte, — a esperança

Dos tempos que hão de chegar;

No presente, — sempre escuro,—

Vive a alma ambiciosa

Na ilusão voluptuosa

Do passado e do futuro.


Os doces brincos da infância

Sob as asas maternais,

O vôo das andorinhas,

A onda viva e os rosais;

O gozo do amor, sonhado

Num olhar profundo e ardente,

Tal é na hora presente

O horizonte do passado.


Ou ambição de grandeza

Que no espírito calou,

Desejo de amor sincero

Que o coração não gozou;

Ou um viver calmo e puro

À alma convalescente,

Tal é na hora presente

O horizonte do futuro.


No breve correr dos dias

Sob o azul do céu, — tais são

Limites no mar da vida:

Saudade ou aspiração;

Ao nosso espírito ardente,

Na avidez do bem sonhado,

Nunca o presente é passado,

Nunca o futuro é presente.


Que cismas, homem? – Perdido

No mar das recordações,

Escuto um eco sentido

Das passadas ilusões.

Que buscas, homem? – Procuro,

Através da imensidade,

Ler a doce realidade

Das ilusões do futuro.

Dois horizontes fecham nossa vida.

Machado de Assis, in 'Crisálidas'

Última Folha

Última Folha

Musa, desce do alto da montanha

Onde aspiraste o aroma da poesia,

E deixa ao eco dos sagrados ermos

A última harmonia.

Dos teus cabelos de ouro, que beijavam

Na amena tarde as virações perdidas,

Deixa cair ao chão as alvas rosas

E as alvas margaridas.


Vês? Não é noite, não, este ar sombrio

Que nos esconde o céu. Inda no poente

Não quebra os raios pálidos e frios

O sol resplandecente.


Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco

Abre-se, como um leito mortuário;

Espera-te o silêncio da planície,

Como um frio sudário.


Desce. Virá um dia em que mais bela,

Mais alegre, mais cheia de harmonias,

Voltes a procurar a voz cadente

Dos teus primeiros dias.


Então coroarás a ingênua fronte

Das flores da manhã, — e ao monte agreste,

Como a noiva fantástica dos ermos,

Irás, musa celeste!


Então, nas horas solenes

Em que o místico himeneu

Une em abraço divino

Verde a terra, azul o céu;


Quando, já finda a tormenta

Que a natureza enlutou,

Bafeja a brisa suave

Cedros que o vento abalou;


E o rio, a árvore e o campo,

A areia, a face do mar,

Parecem, como um concerto,

Palpitar, sorrir, orar;


Então sim, alma de poeta,

Nos teus sonhos cantarás

A glória da natureza,

A ventura, o amor e a paz!


Ah! mas então será mais alto ainda;

Lá onde a alma do vate

Possa escutar os anjos,

E onde não chegue o vão rumor dos homens;

Lá onde, abrindo as asas ambiciosas,

Possa adejar no espaço luminoso,

Viver de luz mais viva e de ar mais puro,

Fartar-se do infinito!

Musa, desce do alto da montanha

Onde aspiraste o aroma da poesia,

E deixa ao eco dos sagrados ermos

A última harmonia!

 
Machado de Assis, in 'Crisálidas'

Do Tempo que Fui Livre me Arrependo

Do Tempo que Fui Livre me Arrependo

O culto divinal se celebrava

No templo donde toda criatura

Louva o Feitor divino, que a feitura

Com seu sagrado sangue restaurava.


Amor ali, que o tempo me aguardava

Onde a vontade tinha mais segura,

Com uma rara e angélica figura

A vista da razão me salteava.


Eu crendo que o lugar me defendia

De seu livre costume, não sabendo

Que nenhum confiado lhe fugia,


Deixei-me cativar; mas hoje vendo,

Senhora, que por vosso me queria,

Do tempo que fui livre me arrependo.


Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

 

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cansaço

 O que há em mim é sobretudo cansaço —


Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.



A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.



Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...



E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimno, íssimo, íssimo,

Cansaço...



Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa