quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Cerca de Grandes Muros Quem te Sonhas

Cerca de grandes muros quem te sonhas.

Depois, onde é visível o jardim

Através do portão de grade dada,

Põe quantas flores são as mais risonhas,

Para que te conheçam só assim.

Onde ninguém o vir não ponhas nada.



Faze canteiros como os que outros têm,

Onde os olhares possam entrever

O teu jardim com lho vais mostrar.

Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,

Deixa as flores que vêm do chão crescer

E deixa as ervas naturais medrar.



Faze de ti um duplo ser guardado;

E que ninguém, que veja e fite, possa

Saber mais que um jardim de quem tu és -

Um jardim ostensivo e reservado,

Por trás do qual a flor nativa roça

A erva tão pobre que nem tu a vês...



Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

As Coisas Transitórias

Irmão,


nada é eterno, nada sobrevive.

Recorda isto, e alegra-te.



A nossa vida

não é só a carga dos anos.

A nossa vereda

não é só o caminho interminável.

Nenhum poeta tem o dever

de cantar a antiga canção.

A flor murcha e morre;

mas aquele que a leva

não deve chorá-la sempre...

Irmão, recorda isto, e alegra-te.



Chegará um silêncio absoluto,

e, então, a música será perfeita.

A vida inclinar-se-á ao poente

para afogar-se em sombras doiradas.

O amor há-de ser chamado do seu jogo

para beber o sofrimento

e subir ao céu das lágrimas ...

Irmão, recorda isto, e alegra-te.



Apanhemos, no ar, as nossas flores,

não no-las arrebate o vento que passa.

Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos

roubando beijos que murchariam

se os esquecêssemos.



É ânsia a nossa vida

e força o nosso desejo,

porque o tempo toca a finados.

Irmão, recorda isto, e alegra-te.



Não podemos, num momento, abraçar as coisas,

parti-las e atirá-las ao chão.

Passam rápidas as horas,

com os sonhos debaixo do manto.

A vida, infindável para o trabalho

e para o fastio,

dá-nos apenas um dia para o amor.

Irmão, recorda isto, e alegra-te.



Sabe-nos bem a beleza

porque a sua dança volúvel

é o ritmo das nossas vidas.

Gostamos da sabedoria

porque não temos sempre de a acabar.

No eterno tudo está feito e concluído,

mas as flores da ilusão terrena

são eternamente frescas,

por causa da morte.

Irmão, recorda isto, e alegra-te.



Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

Tradução de Manuel Simões

Aspiração

Sinto que há na minha alma um vácuo imenso e fundo,
E desta meia morte o frio olhar do mundo
Não vê o que há de triste e de real em mim;
Muita vez, ó poeta, a dor é casta assim;
Refolha-se, não diz no rosto o que ela é,
E nem que o revelasse, o vulgo não põe fé
Nas tristes comoções da verde mocidade,
E responde sorrindo à cruel realidade.

Não assim tu, ó alma, ó coração amigo;
Nu, como a consciência, abro-me aqui contigo;
Tu que corres, como eu, na vereda fatal
Em busca do mesmo alvo e do mesmo ideal.
Deixemos que ela ria, a turba ignara e vã;
Nossas almas a sós, como irmã junto a irmã,
Em santa comunhão, sem cárcere, sem véus.
Conversarão no espaço e mais perto de Deus.

Deus quando abre ao poeta as portas desta vida
Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
Tarja de luto a folha em que lhe deixa escritas
A suprema saudade e as dores infinitas.
Alma errante e perdida em um fatal desterro,
Neste primeiro e fundo e triste limbo do erro,
Chora a pátria celeste, o foco, o centro, a luz,
Onde o anjo da morte, ou da vida, o conduz
No dia festival do grande livramento;
Antes disso, a tristeza, o sombrio tormento,
O torvo azar, e mais, a torva solidão,

Embaciam-lhe na alma o espelho da ilusão.
O poeta chora e vê perderem-se esfolhadas
Da verde primavera as flores tão cuidadas;
Rasga, como Jesus, no caminho das dores,
Os lassos pés; o sangue umedece-lhe as flores
Mortas ali, — e a fé, a fé mãe, a fé santa,
Ao vento impuro e mau que as ilusões quebranta,
Na alma que ali se vai muitas vezes vacila...

Oh! feliz o que pode, alma alegre e tranqüila,
A esperança vivaz e as ilusões floridas,
Atravessar cantando as longas avenidas
Que levam do presente ao secreto porvir!
Feliz esse! Esse pode amar, gozar, sentir,
Viver enfim! A vida é o amor, é a paz,
É a doce ilusão e a esperança vivaz;
Não esta do poeta, esta que Deus nos pôs
Nem como inútil fardo, antes como um algoz.

O poeta busca sempre o almejado ideal...
Triste e funesto afã! tentativa fatal!
Nesta sede de luz, nesta fome de amor,
O poeta corre à estrela, à brisa, ao mar, à flor;
Quer ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina,
Quer–lhe o cheiro aspirar na rosa da campina,
Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar,
Ó inútil esforço! Ó ímprobo lutar!
Em vez da luz, do aroma, ou do alento ou da voz,
Acha-se o nada, o torvo, o impassível algoz!

Onde te escondes, pois, ideal da ventura?
Em que canto da terra, em que funda espessura
Foste esconder, ó fada, o teu esquivo lar ?
Dos homens esquecido, em ermo recatado,
Que voz do coração, que lágrima, que brado
Do sono em que ora estás te virá despertar?

A esta sede de amar só Deus conhece a fonte?
Jorra ele ainda além deste fundo horizonte
Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar?
Que asas nos deste, ó Deus, para transpor o espaço?
Ao ermo do desterro inda nos prende um laço:
Onde encontrar a mão que o venha desatar?

Creio que só em ti há essa luz secreta,
Essa estrela polar dos sonhos do poeta,
Esse alvo, esse termo, esse mago ideal;
Fonte de todo o ser e fonte da verdade,
Nós vamos para ti, e em tua imensidade
É que havemos de ter o repouso final.

É triste quando a vida, erma, como esta, passa;
E quando nos impele o sopro da desgraça
Longe de ti, ó Deus, e distante do amor !
Mas guardemos, poeta, a melhor esperança:
Sucederá a glória à salutar provança:
O que a terra não deu, dar-nos-á o Senhor !

 
Machado de Assis, in 'Crisálidas'

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Imagens que Passais pela Retina


Imagens que passais pela retina

Dos meus olhos, porque não vos fixais?

Que passais como a água cristalina

Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina

Vosso curso, silente de juncais,

E o vago medo angustioso domina,

_ Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?

_ O espelho inútil, meus olhos pagãos!

Aridez de sucessivos desertos...

Fica sequer, sombra das minhas mãos,

Flexão casual de meus dedos incertos,

_ Estranha sombra em movimentos vãos.



Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'




Estou Cansado

Estou cansado, é claro,


Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.

A ferida dói como dói

E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,

E um pouco sorridente

De o cansaço ser só isto —

Uma vontade de sono no corpo,

Um desejo de não pensar na alma,

E por cima de tudo uma transparência lúcida

Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?

Sou inteligente; eis tudo.

Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,

E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,

Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.



Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa

O que Me Dói não É

O que me dói não é

O que há no coração

Mas essas coisas lindas

Que nunca existirão...



São as formas sem forma

Que passam sem que a dor

As possa conhecer

Ou as sonhar o amor.



São como se a tristeza

Fosse árvore e, uma a uma,

Caíssem suas folhas

Entre o vestígio e a bruma.



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

domingo, 28 de agosto de 2011

Dormir um Pouco...

Homenagem a Federico García Lorca




Dormir um pouco — um minuto,

um século. Acordar

na crista

duma onda, ser

o lastro de espuma

que há no sono

das algas. Ou

ser apenas

a maré, que sempre

volta

para dizer: eu não morri, eu sou

a borboleta

do vento, a flor

incandescente destas águas.



Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

Durmo. Se Sonho, ao Despertar não Sei

Durmo. Se sonho, ao despertar não sei

Que coisas eu sonhei.

Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto

Para um espaço aberto

Que não conheço, pois que despertei

Para o que inda não sei.

Melhor é nem sonhar nem não sonhar

E nunca despertar.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Dorme, que a Vida é Nada!


Dorme, que a vida é nada!

Dorme, que tudo é vão!

Se alguém achou a estrada,

Achou-a em confusão,

Com a alma enganada.



Não há lugar nem dia

Para quem quer achar,

Nem paz nem alegria

Para quem, por amar,

Em quem ama confia.



Melhor entre onde os ramos

Tecem docéis sem ser

Ficar como ficamos,

Sem pensar nem querer,

Dando o que nunca damos.



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Reduzir a Dependência das Coisas

Tudo consiste em reduzir a dependência das coisas.


Partes amanhã. Não mais nos veremos. Um pouco o

desertor a cada passagem da nossa alma ou

quem espera para morrer.



A aquisição de todos estes bens

as espécies de tristeza são o que

acompanha quem espera — quais as pretendidas

vantagens? a juventude ou o mar?



Que te importa o que posso ou não fazer? Se

estamos tão perto quando nas ruas cruzamos e dizemos

o herói de toda a circunstância — a tua vida

precede a minha a tua morte ao abrigo das paixões

mas nada disto é dito

animal que repousa sob o erro.



Pela última vez

põe os teus sapatos novos

tão contrários à fonte dos actos e à moral

e vem, mesmo que tenhas andado para lá do som,

lavadinho, para que eu possa passar a minha mão

pelo pêlo

pelo pêlo lugar também do saber e de toda a possessão.



João Miguel Fernandes Jorge, in "Direito de Mentir"

Pecado Original

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?


Será essa, se alguém a escrever,

A verdadeira história da humanidade.



O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;

O que não há somos nós, e a verdade está aí.



Sou quem falhei ser.

Somos todos quem nos supusemos.

A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.



Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?

Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?



Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas

Sobre o parapeito alto da janela de sacada,

Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.



Que é da minha realidade, que só tenho a vida?

Que é de mim, que sou só quem existo?



Quantos Césares fui!



Na alma, e com alguma verdade;

Na imaginação, e com alguma justiça;

Na inteligência, e com alguma razão —

Meu Deus! meu Deus! meu Deus!

Quantos Césares fui!

Quantos Césares fui!

Quantos Césares fui!



Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa

Irmão, Irmãos

Cada irmão é diferente.


Sozinho acoplado a outros sozinhos.

A linguagem sobe escadas, do mais moço,

ao mais velho e seu castelo de importância.

A linguagem desce escadas, do mais velho

ao mísero caçula.



São seis ou são seiscentas

distâncias que se cruzam, se dilatam

no gesto, no calar, no pensamento?

Que léguas de um a outro irmão.

Entretanto, o campo aberto,

os mesmos copos,



o mesmo vinhático das camas iguais.

A casa é a mesma. Igual,

vista por olhos diferentes?



São estranhos próximos, atentos

à área de domínio, indevassáveis.

Guardar o seu segredo, sua alma,

seus objectos de toalete. Ninguém ouse

indevida cópia de outra vida.



Ser irmão é ser o quê? Uma presença

a decifrar mais tarde, com saudade?

Com saudade de quê? De uma pueril

vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?



Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'

sábado, 27 de agosto de 2011

Mergulha nos Sonhos


mergulha nos sonhos

ou um lema pode ser teu aluimento

(as árvores são as suas raízes

e o vento é o vento)



confia no teu coração

se os mares se incendeiam

(e vive pelo amor

embora as estrelas para trás andem)



honra o passado

mas acolhe o futuro

(e esgota no bailado

deste casamento a tua morte)



não te importes com o mundo

com quem faz a paz e a guerra

(pois deus gosta de raparigas

e do amanhã e da terra)



E. E. Cummings, in "livrodepoemas"


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Anoitecer

A luz desmaia num fulgor d'aurora,

Diz-nos adeus religiosamente...

E eu, que não creio em nada, sou mais crente

Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora

Tenho bênçãos d'amor pra toda a gente!

Como eu sou pequenina e tão dolente

No amargo infinito desta hora!

Horas tristes que são o meu rosário...

Ó minha cruz de tão pesado lenho!

Meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:

Saudades de saudades que não tenho...

Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...


Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

A Flor do Sonho

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,


Miraculosamente abriu em mim,

Como se uma magnólia de cetim

Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina

E não posso entender como é que, enfim,

Essa tão rara flor abriu assim! ...

Milagre ... fantasia ... ou, talvez, sina ...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,

Que tem que sejam tristes os meus olhos

Se eles são tristes pelo amor de ti?! ...

Desde que em mim nasceste em noite calma,

Voou ao longe a asa da minha’alma

E nunca, nunca mais eu me entendi ...


Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

Quando Eu Sonhava

Quando eu sonhava, era assim

Que nos meus sonhos a via;

E era assim que me fugia,

Apenas eu despertava,

Essa imagem fugidia

Que nunca pude alcançar.

Agora, que estou desperto,

Agora a vejo fixar...

Para quê? - Quando era vaga,

Uma ideia, um pensamento,

Um raio de estrela incerto

No imenso firmamento,

Uma quimera, um vão sonho,

Eu sonhava - mas vivia:

Prazer não sabia o que era,

Mas dor, não na conhecia ...



Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

Que Há para Lá do Sonhar?

Céu baixo, grosso, cinzento


e uma luz vaga pelo ar

chama-me ao gosto de estar

reduzido ao fermento

do que em mim a levedar

é este estranho tormento

de me estar tudo a contento,

em todo o meu pensamento

ser pensar a dormitar.

Mas que há para lá do sonhar?

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

Janela do Sonho

Abri as janelas


que havia dentro de ti

e entrei abandonado

nos teus braços generosos.



Senti dentro de mim

o tempo a criar silêncio

para te beber altiva e plena.



Mil vezes

repeti teu nome,

mil vezes,

de forma aveludada

e era a chave

que se expunha

e fecundava dentro de mim.



Já não se sonha,

deixei de sonhar,

o sonho é poeira dos tempos

é a voz da extensão

é a voz da pureza

que dardejava na nossa doçura.



Quando abri as tuas janelas

e despi teus braços

perdi a vaidade

e a pressa,

amei a partida

e em silêncio abri,

(sem saber que abria)

uma noite húmida

em combustão secreta

desmaiado no teu ombro

de afrodite.



Carlos Melo Santos, in "Lavra de Amor"

O Passado é o Presente na Lembrança

Se recordo quem fui, outrem me vejo,


E o passado é o presente na lembrança.

Quem fui é alguém que amo

Porém somente em sonho.

E a saudade que me aflige a mente

Não é de mim nem do passado visto,

Senão de quem habito

Por trás dos olhos cegos.

Nada, senão o instante, me conhece.

Minha mesma lembrança é nada, e sinto

Que quem sou e quem fui

São sonhos diferentes.



Ricardo Reis, in "Odes"

Heterónimo de Fernando Pessoa

A um Homem do Passado

Estes são os tempos futuros que temia

o teu coração que mirrou sob pedras,

que podes recear agora tão fundo,

onde não chegam as aflições nem as palavras duras?


Desceste em andamento; afinal era

tudo tão inevitável como o resto.

Viraste-te para o outro lado e sumiram-se

da tua vista os bons e os maus momentos.


Tu ainda tinhas essa porta à mão.

(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)

Agora já não é possível morrer ou,

pelo menos, já não chega fechar os olhos.


Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"

Porque é Tão Ansiosamente que Espero por Ti?

Porque é tão ansiosamente que espero por ti?

Sabias ocultar entre os teus menores movimentos

a lembrança de um corpo e de um ardor sem música

nem esquecimento possível. Quantas cidades

atravessámos, quantos «grandes são os desertos e tudo é deserto»,

quanto alimento para os cães da memória! Deixa-os,

consente o esquecimento, solta com raiva das tuas veias

a música, regressa ao lugar donde partiste. Peço-te,

regressa. Nós nunca acordamos conformes,

nenhuma cifra nos devolverá o número mágico,

vestimo-nos sem convicção e pedimos emprestadas

fórmulas antigas. Da nossa idade

guardámos alguns emblemas, alguns maneirismos.

Acredita-me: é o momento de nos abandonarmos

à necessidade, de açularmos os cães, de sermos nós mesmos

um inquietante rosnido entre as frestas do muro.

Regressemos, não há Ítaca possível, os corpos desfizemo-los

na mesma erosão do seu mágico movimento.

Porque é tão ansiosamente que espero por ti

se nenhuma luz mais cabe no terror de mim?



Luis Filipe Castro Mendes, in "Seis Elegias"

Um Poema de Amor

Não sei onde estás, se falas

ou se apenas olhas o horizonte,

que pode ser apenas o de uma

parede de quarto. Mas sei que

uma sombra se demora contigo,

quando me pergunto onde estás:

uma inquietação que atravessa

o espaço entre mim e ti, e

te rouba as certezas de hoje,

como a mim me dá este poema.



Nuno Júdice, in "O Movimento do Mundo"

Do Inquieto Oceano da Multidão

Do inquieto oceano da multidão


veio a mim uma gota gentilmente

suspirando:



— Eu te amo, há longo tempo

fiz uma extensa caminhada apenas

para te olhar, tocar-te,

pois não podia morrer

sem te olhar uma vez antes,

com o meu temor de perder-te depois.



— Agora nos encontramos e olhamos,

estamos salvos,

retorna em paz ao oceano, meu amor,

também sou parte do oceano, meu amor,

não estamos assim tão separados,

olha a imensa curvatura,

a coesão de tudo tão perfeito!

Quanto a mim e a ti,

separa-nos o mar irresistível

levando-nos algum tempo afastados,

embora não possa afastar-nos sempre:

não fiques impaciente — um breve espaço

e fica certa de que eu saúdo o ar,

a terra e o oceano,

todos os dias ao pôr-do-sol

por tua amada causa, meu amor.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

Não te Fies do Tempo nem da Eternidade

Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...

Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'

 

Coração sem Imagens

Deito fora as imagens.

Sem ti, para que me servem

as imagens?


Preciso habituar-me

a substituir-te

pelo vento,

que está em qualquer parte

e cuja direcção

é igualmente passageira

e verídica.


Preciso habituar-me ao eco dos teus passos

numa casa deserta,

ao trémulo vigor de todos os teus gestos

invisíveis,

à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve

a não ser eu.


Serei feliz sem as imagens.

As imagens não dão

felicidade a ninguém.


Era mais difícil perder-te,

e, no entanto, perdi-te.


Era mais difícil inventar-te,

e eu te inventei.


Posso passar sem as imagens

assim como posso

passar sem ti.


E hei-de ser feliz ainda que

isso não seja ser feliz.


Raúl de Carvalho, in “Obras de Raul de Carvalho”


A Cor da Tua Alma

Enquanto eu te beijo, o seu rumor


nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro

que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro

da árvore que é a árvore de meu amor.



Não é fulgor, não é ardor, não é primor

o que me dá de ti o que te adoro,

com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,

é o ouro feito sombra: a tua cor.



A cor de tua alma; pois teus olhos

vão-se tornando nela, e à medida

que o sol troca por seus rubros seus ouros,

e tu te fazes pálida e fundida,

sai o ouro feito tu de teus dois olhos

que me são paz, fé, sol: a minha vida!



Juan Ramón Jiménez, in "Ríos que se Van"

Os Instantes Superiores da Alma

Os instantes Superiores da Alma

Acontecem-lhe - na solidão -

Quando o amigo - e a ocasião Terrena

Se retiram para muito longe -



Ou quando - Ela Própria - subiu

A um plano tão alto

Para Reconhecer menos

Do que a sua Omnipotência -



Essa Abolição Mortal

É rara - mas tão bela

Como Aparição - sujeita

A um Ar Absoluto -



Revelação da Eternidade

Aos seus favoritos - bem poucos -

A Gigantesca substância

Da Imortalidade



Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"

O Erro de Querer Ser Igual a Alguém

Aqui, neste misérrimo desterro


Onde nem desterrado estou, habito,

Fiel, sem que queira, àquele antigo erro

Pelo qual sou proscrito.

O erro de querer ser igual a alguém

Feliz em suma — quanto a sorte deu

A cada coração o único bem

De ele poder ser seu.



Ricardo Reis, in "Odes"

Heterónimo de Fernando Pessoa

Ser Real quer Dizer não Estar Dentro de Mim

Seja o que for que esteja no centro do Mundo,


Deu-me o mundo exterior por exemplo de Realidade,

E quando digo "isto é real", mesmo de um sentimento,

Vejo-o sem querer em um espaço qualquer exterior,

Vejo-o com uma visão qualquer fora e alheio a mim.



Ser real quer dizer não estar dentro de mim.

Da minha pessoa de dentro não tenho noção de realidade.

Sei que o mundo existe, mas não sei se existo.

Estou mais certo da existência da minha casa branca

Do que da existência interior do dono da casa branca.

Creio mais no meu corpo do que na minha alma,

Porque o meu corpo apresenta-se no meio da realidade.

Podendo ser visto por outros,

Podendo tocar em outros,

Podendo sentar-se e estar de pé,

Mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora.

Existe para mim — nos momentos em que julgo que efetivamente

existe —



Por um empréstimo da realidade exterior do Mundo



Se a alma é mais real

Que o mundo exterior como tu, filósofos, dizes,

Para que é que o mundo exterior me foi dado como tipo da realidade"



Se é mais certo eu sentir

Do que existir a cousa que sinto —

Para que sinto

E para que surge essa cousa independentemente de mim

Sem precisar de mim para existir,

E eu sempre ligado a mim-próprio, sempre pessoal e intransmissível?

Para que me movo com os outros

Em um mundo em que nos entendemos e onde coincidimos

Se por acaso esse mundo é o erro e eu é que estou certo?

Se o Mundo é um erro, é um erro de toda a gente.

E cada um de nós é o erro de cada um de nós apenas.

Cousa por cousa, o Mundo é mais certo.



Mas por que me interrogo, senão porque estou doente?

Nos dias certos; nos dias exteriores da minha vida,

Nos meus dias de perfeita lucidez natural,

Sinto sem sentir que sinto,

Vejo sem saber que vejo,

E nunca o Universo é tão real como então,

Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim.

Mas) tão sublimemente não-meu.



Quando digo "é evidente", quero acaso dizer "só eu é que o vejo"?

Quando digo "é verdade", quero acaso dizer "é minha opinião"?

Quando digo "ali está", quero acaso dizer "não está ali"?

E se isto é assim na vida, por que será diferente na filosofia?

Vivemos antes de filosofar, existimos antes de o sabermos,

E o primeiro fato merece ao menos a precedência e o culto.



Sim, antes de sermos interior somos exterior.

Por isso somos exterior essencialmente.



Dizes, filósofo doente, filósofo enfim, que isto é materialismo.

Mas isto como pode ser materialismo, se materialismo é uma ilosofia,

Se uma filosofia seria, pelo menos sendo minha, uma filosofia minha,

E isto nem sequer é meu, nem sequer sou eu?



Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Heterónimo de Fernando Pessoa

E à Arte o Mundo Cria

E à Arte o Mundo Cria Seguro Assento na coluna firme

Dos versos em que fico,

Nem temo o influxo inúmero futuro

Dos tempos e do olvido;

Que a mente, quando, fixa, em si contempla

Os reflexos do mundo,

Deles se plasma torna, e à arte o mundo

Cria, que não a mente.

Assim na placa o externo instante grava

Seu ser, durando nela.


Ricardo Reis, in "Odes"

Heterónimo de Fernando Pessoa

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Nascemos para Amar



Nascemos para amar; a Humanidade

Vai, tarde ou cedo, aos laços da ternura.

Tu és doce atractivo, ó Formosura,

Que encanta, que seduz, que persuade.



Enleia-se por gosto a liberdade;

E depois que a paixão na alma se apura,

Alguns então lhe chamam desventura,

Chamam-lhe alguns então felicidade.



Qual se abisma nas lôbregas tristezas,

Qual em suaves júbilos discorre,

Com esperanças mil na ideia acesas.



Amor ou desfalece, ou pára, ou corre:

E, segundo as diversas naturezas,

Um porfia, este esquece, aquele morre.



Bocage, in 'Sonetos'

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O Que Alguém Disse

"Refugia-te na Arte" diz-me Alguém

"Eleva-te num vôo espiritual,

Esquece o teu amor, ri do teu mal,

Olhando-te a ti própria com desdém.



Só é grande e perfeito o que nos vem

Do que em nós é Divino e imortal!

Cega de luz e tonta de ideal

Busca em ti a Verdade e em mais ninguém!"



No poente doirado como a chama

Estas palavras morrem... E n'Aquele

Que é triste, como eu, fico a pensar...



O poente tem alma: sente e ama!

E, porque o sol é cor dos olhos d'Ele,

Eu fico olhando o sol, a soluçar...



Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

A Cidade do Sonho

A Cidade do Sonho Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te

O caminho que leva à Cidade do Sonho...

De tão alta que está, vê-se de toda a parte,

Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.

 
Vai por entre rosais, sinuoso e macio,

Como o caminho chão duma aldeia ao luar,

Todo branco a luzir numa noite de Estio,

Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.


Se o teu ânimo sofre amarguras na vida,

Deves empreender essa jornada louca;

O Sonho é para nós a Terra Prometida:

Em beijos o maná chove na nossa boca...


Vistos dessa eminência, o mundo e as suas

[sombras,

Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol;

O mais estéril chão tapeta-se de alfombras,

Não há nuvens no céu, nunca se põe o Sol.


Nela mora encantada a Ventura perfeita

Que no mundo jamais nos é dado sentir...

E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,

A própria Dor começa a cantar e a sorrir!


Que importa o despertar? Esse instante divino

Como recordação indelével persiste;

E neste amargo exílio, através do destino,

Ventura sem pesar só na memória existe...


António Feijó, in 'Sol de Inverno'



Mergulha nos Sonhos

mergulha nos sonhos

ou um lema pode ser teu aluimento

(as árvores são as suas raízes

e o vento é o vento)



confia no teu coração

se os mares se incendeiam

(e vive pelo amor

embora as estrelas para trás andem)



honra o passado

mas acolhe o futuro

(e esgota no bailado

deste casamento a tua morte)



não te importes com o mundo

com quem faz a paz e a guerra

(pois deus gosta de raparigas

e do amanhã e da terra)



E. E. Cummings, in "livrodepoemas"

Tradução de Cecília Rego Pinheiro


domingo, 7 de agosto de 2011

Meus Olhos Vêem Melhor se os Vou Fechando

Meus olhos vêem melhor se os vou fechando.

Viram coisas de dia e foi em vão,

mas quando durmo, em sonhos te fitando,

são escura luz que luz na escuridão.

Tu cuja sombra faz a sombra clara,

como em forma de sombras assombravas

ledo o claro dia em luz mais rara,

se em sombra a olhos sem visão brilhavas!

Que benção a meus olhos fora feita

vendo-te à viva luz do dia bem,

se a tua sombra em trevas imperfeita

a olhos sem visão no sono vem!

Vejo os dias quais noites não te vendo,

e as noites dias claros sonhos tendo.




William Shakespeare, in "Sonetos (43)"

Quem Somos

Quem somos, senão o que imperfeitamente

sabemos de um passado de vultos

mal recortados na neblina opaca,

imprecisos rostos mentidos nas páginas

antigas de tomos cujas palavras

não são, de certo, as proferidas,

ou reproduzem sequer actos e gestos

cometidos. Ergue-se a lâmina:

metal e terra conhecem o sangue

em fronteiras e destinos pouco

a pouco corrigidos na memória

indecifrável das areias.

A lápide, que nomeia, não descreve

e a história que o historia,

eco vário e distorcido, é já

diversa e a si própria se entretece

na mortalha de conjecturados perfis.

Amanhã seremos outros. Por ora

nada somos senão o imperfeito

limbo da legenda que seremos.


Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os Instantes Superiores da Alma

Os instantes Superiores da Alma

Acontecem-lhe - na solidão -

Quando o amigo - e a ocasião Terrena

Se retiram para muito longe -

 

Ou quando - Ela Própria - subiu

A um plano tão alto

Para Reconhecer menos

Do que a sua Omnipotência -


Essa Abolição Mortal

É rara - mas tão bela

Como Aparição - sujeita

A um Ar Absoluto -


Revelação da Eternidade

Aos seus favoritos - bem poucos -

A Gigantesca substância

Da Imortalidade


Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"

Tradução de Nuno Júdice

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sun and flowers

Comparar-te a um Dia de Verão?

Comparar-te a um dia de verão?

Há mais ternura em ti, ainda assim:

um maio em flor às mãos do furacão,

o foral do verão que chega ao fim.

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;

outras, desfaz-se a compleição doirada,

perde beleza a beleza; e o que perdeu

vai no acaso, na natureza, em nada.

Mas juro-te que o teu humano verão

será eterno; sempre crescerás

indiferente ao tempo na canção;

e, na canção sem morte, viverás:

Porque o mundo, que vê e que respira,

te verá respirar na minha lira.

William Shakespeare, in "Sonetos"

Tradução de Carlos de Oliveira

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Desaprender

Há uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a... desaprender. E para quê e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega às mãos, não exclame, satisfeito ou enfastiado: «- Cá está ele!».



Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.


Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado.


Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza «dossiers» com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios.


É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e por que não?, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia a dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.


Se as coisas continuarem indefinidamente assim, o escritor pode ser alcandorado a gloríola nacional, com todos os direitos inerentes a uma situação dessas: academia, nome de rua, estatueta ou estátua, tudo isso em devido tempo, quer dizer, já velho ou já morto o escritor.


Pedra campal sobre o assunto.

Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"

Aprender a Viver

De um modo geral aceita-se que nenhuma actividade pode ser levada a cabo com sucesso por um indivíduo que esteja preocupado, uma vez que, quando distraída, a mente nada absorve com profundidade, mas rejeita tudo quanto, por assim dizer, a assoberba. Viver é a actividade menos importante do homem preocupado, no entanto, nada há mais difícil de aprender; por todo o lado, encontram-se muitos instrutores das outras artes: na realidade, algumas destas artes são captadas tão intensamente por simples rapazes que assim as podem ensinar. Mas aprender a viver exige uma vida inteira e, o que te pode supreender ainda mais, é necessária uma vida inteira para aprender a morrer.


Tantos dos mais ilustres homens puseram de lado todos os seus embaraços, renunciando a riquezas, negócios e prazeres e tomaram como único alvo até ao fim das suas vidas, saber viver.


Contudo, muitos deles morreram a confessar que ainda nada sabiam - muito menos saberão os outros. Acredita em mim: é marca de um grande homem, daquele que está acima do erro humano, não permitir que o seu tempo seja esbanjado: ele tem a mais longa vida possível simplesmente porque todo o tempo que tinha disponível o devotou inteiramente a si. Nada do seu tempo é desperdiçado ou negligenciado, nada do seu tempo fica sob controlo de outrém; ao ser um guardião extremamente zeloso do seu tempo, nunca encontrou nada que merecesse a troca. Assim, ele tem tempo suficiente; mas aqueles em cujas vidas o público faz grandes devassas inevitavelmente têm muito pouco de seu.


Séneca, in 'Da Brevidade da Vida'