quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sonhos



"Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir.

Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida

e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades

para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E

esperança suficiente para fazê-la feliz."



Clarice Lispector

quinta-feira, 23 de junho de 2011

NOITE DE SAUDADE

"A noite vem poisando devagar


Sobre a Terra,que inunda de amargura...

E nem sequer a bênção do luar

A quis tornar divinamente pura...



Ninguém vem atrás dela a acompanhar

A sua dor que é cheia de tortura...

E eu oiço a Noite imensa soluçar!

E eu oiço soluçar a Noite escura!



Por que és assim tão'scura,assim tão triste?!

É que,talvez,o Noite,em ti existe

Uma saudade igual à que eu contenho!



Saudade que eu sei donde me vem...

Talvez de ti,ó Noite!...Ou de ninguém!...

Que eu nunca sei quem sou,nem o que tenho!!"



Florbela Espanca
Saudade é não saber.
 Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,
não saber como frear as lágrimas diante de uma música,
não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.


Martha Medeiros

PEDAÇOS DE MIM

Eu sou feito de


Sonhos interrompidos

detalhes despercebidos

amores mal resolvidos



Sou feito de

Choros sem ter razão

pessoas no coração

atos por impulsão



Sinto falta de

Lugares que não conheci

experiências que não vivi

momentos que já esqueci



Eu sou

Amor e carinho constante

distraída até o bastante

não paro por instante





Tive noites mal dormidas

perdi pessoas muito queridas

cumpri coisas não-prometidas



Muitas vezes eu

Desisti sem mesmo tentar

pensei em fugir,para não enfrentar

sorri para não chorar



Eu sinto pelas

Coisas que não mudei

amizades que não cultivei

aqueles que eu julguei

coisas que eu falei



Tenho saudade

De pessoas que fui conhecendo

lembranças que fui esquecendo

amigos que acabei perdendo

Mas continuo vivendo e aprendendo.



Martha Medeiros
Os ventos que as vezes tiram


algo que amamos, são os

mesmos que trazem algo que

aprendemos a amar...

Por isso não devemos chorar

pelo que nos foi tirado e sim,

aprender a amar o que nos foi

dado.Pois tudo aquilo que é

realmente nosso, nunca se vai

para sempre...


Bob Marley

Quando eu for, um dia desses,

Quando eu for, um dia desses,


Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,

Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso



Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar,

Suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(Deste já tão longo andar!)



E talvez de meu repouso...



Mário Quintana

De que são feitos os dias?

De que são feitos os dias?


- De pequenos desejos,

vagarosas saudades,

silenciosas lembranças.



Entre mágoas sombrias,

momentâneos lampejos:

vagas felicidades,

inatuais esperanças.



De loucuras, de crimes,

de pecados, de glórias

- do medo que encadeia

todas essas mudanças.



Dentro deles vivemos,

dentro deles choramos,

em duros desenlaces

e em sinistras alianças...



Cecília Meireles

O LUAR

luar,


é a luz do Sol que está sonhando



O tempo não pára!

A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...



...os verdadeiros versos não são para embalar,

mas para abalar...



A grande tristeza dos rios é não poderem levar a tua imagem...



Mário Quintana

Saudades

Tomara


Que você volte depressa

Que você não se despeça

Nunca mais do meu carinho

E chore, se arrependa

E pense muito

Que é melhor se sofrer junto

Que viver feliz sozinho



Tomara

Que a tristeza te convença

Que a saudade não compensa

E que a ausência não dá paz

E o verdadeiro amor de quem se ama

Tece a mesma antiga trama

Que não se desfaz



E a coisa mais divina

Que há no mundo

É viver cada segundo

Como nunca mais...



Vinícius de Moraes

Saudade

Há dor que mata a pessoa


Sem dó nem piedade.

Porém não há dor que doa

Como a dor de uma saudade.



Patativa do Assaré

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,


tenho razão de te acusar.

Houve um pacto implícito que rompeste

e sem te despedires foste embora.

Detonaste o pacto.

Detonaste a vida geral, a comum aquiescência

de viver e explorar os rumos de obscuridade

sem prazo sem consulta sem provocação

até o limite das folhas caídas na hora de cair.



Antecipaste a hora.

Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.

Que poderias ter feito de mais grave

do que o ato sem continuação, o ato em si,

o ato que não ousamos nem sabemos ousar

porque depois dele não há nada?



Tenho razão para sentir saudade de ti,

de nossa convivência em falas camaradas,

simples apertar de mãos, nem isso, voz

modulando sílabas conhecidas e banais

que eram sempre certeza e segurança.



Sim, tenho saudades.

Sim, acuso-te porque fizeste

o não previsto nas leis da amizade e da natureza

nem nos deixaste sequer o direito de indagar

porque o fizeste, porque te foste



Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ternura


Desvio dos teus ombros o lençol,

que é feito de ternura amarrotada,

da frescura que vem depois do sol,

quando depois do sol não vem mais nada...



Olho a roupa no chão: que tempestade!

Há restos de ternura pelo meio,

como vultos perdidos na cidade

onde uma tempestade sobreveio...



Começas a vestir-te, lentamente,

e é ternura também que vou vestindo,

para enfrentar lá fora aquela gente

que da nossa ternura anda sorrindo...



Mas ninguém sonha a pressa com que nós

a despimos assim que estamos sós!



David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"

Saudade

Redenção



Vozes do mar, das árvores, do vento!

Quando às vezes, n'um sonho doloroso,

Me embala o vosso canto poderoso,

Eu julgo igual ao meu vosso tormento...


Verbo crepuscular e íntimo alento

Das cousas mudas; psalmo misterioso;

Não serás tu, queixume vaporoso,

O suspiro do mundo e o seu lamento?


Um espírito habita a imensidade:

Uma ânsia cruel de liberdade

Agita e abala as formas fugitivas.


E eu compreendo a vossa língua estranha,

Vozes do mar, da selva, da montanha...

Almas irmãs da minha, almas cativas!

II
Não choreis, ventos, árvores e mares,

Coro antigo de vozes rumorosas,

Das vozes primitivas, dolorosas

Como um pranto de larvas tumulares...


Da sombra das visões crepusculares

Rompendo, um dia, surgireis radiosas

D'esse sonho e essas ânsias afrontosas,

Que exprimem vossas queixas singulares...


Almas no limbo ainda da existência,

Acordareis um dia na Consciência,

E pairando, já puro pensamento,

Vereis as Formas, filhas da Ilusão,

Cair desfeitas, como um sonho vão...

E acabará por fim vosso tormento.

Antero de Quental, in "Sonetos"
 

Bom Dia!

Gifs by Oriza - Liebesgedichte, Freundschaft


Soneto 54

Oh, como a beleza parece mais bela

com o doce ornamento que a verdade produz!

A rosa tão bela, mas mais bela a julgamos

Pelo doce aroma que nela seduz.


As rosas silvestres têem a cor tão profunda

Quanto a tintura das rosas perfumadas,

Têem os mesmos espinhos e brincam tão vivamente

Quando o sopro do verão expõe os botões velados;


Mas exibem-se apenas para si mesmas,

Vivem esquecidas e murcham obscuras;

Morrem sozinhas. As doces rosas, não;


De suas doces mortes surgem as mais doces essências.

e assim também a ti, a bela e adorável mocidade,

Fenecido o frescor, revela em versos tua verdade.

William Shakespeare

Dos mais belos seres, queremos mais

Dos mais belos seres, queremos mais

De tal forma que não finde jamais a rosa da beleza,

Mas enquanto as mais maduras decrescem com o tempo,

Seus rebentos jovens possam relembrar suas memórias:

Mas tu, contratada a seus lindos olhos,
 
És auto-suficiente na luz de tua chama com tua beleza,

E crias a fome, onde está a abundância,

Inimiga de ti mesma, tu que és tão doce, a ti mesma tão cruel.
 
Hoje frescamente ornamentas o mundo,
 
E pareces a única capaz de anunciar a abundância da primavera,
 
Mas eis que dentro de teu próprio botão enterras tua essência,
 
E, tolinha, ocacionas um desperdício na natureza,

Tem pena do mundo, ou então isto seria egoísmo,

Consumir o quinhão que ao mundo se deve, e isto ao túmulo, e a ti mesma.

William Shakespeare





A Grande Esfinge do Egito

A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro...


Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente

E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...

Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena

Ser o perfil do rei Quéops ...

De repente paro...

Escureceu tudo...


Caio por um abismo feito de tempo...


Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro

E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...



Ouço a Esfinge rir por dentro

O som da minha pena a correr no papel...

Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,

Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,

E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve

Jaz o cadáver do rei Quéops, olhando-me com olhos muito abertos,

E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo

E uma alegria de barcos embandeirados erra

Numa diagonal difusa

Entre mim e o que eu penso...



Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim! ...



Fernando Pessoa

Poemas ao Vento

Vento que passas

Nos pinheirais

Quantas desgraças

Lembram teus ais.

Quanta tristeza,

Sem o perdão

De chorar pesa

No coração.

E ó vento vago

Das solidões

Traze um afago

Aos corações.



À dor que ignoras

Presta os teus ais,

Vento que choras

Nos pinheirais.

Sopra o vento, sopra o vento,

Sopra alto o vento lá fora;

Mas também meu pensamento

Tem um vento que o devora.

Há uma íntima intenção

Que tumultua em meu ser

E faz do meu coração

O que um vento quer varrer;

Não sei se há ramos deitados

Abaixo no temporal,

Se pés do chão levantados

Num sopro onde tudo é igual.



Dos ramos que ali caíram

Sei só que há mágoas e dores

Destinadas a não ser

Mais que um desfolhar de flores.

Fernando Pessoa