domingo, 25 de setembro de 2011

Primavera

Primavera gentil dos meus amores,
- Arca cerúlea de ilusões etéreas,
Chova-te o Céu cintilações sidéreas
E a terra chova no teu seio flores!

 
Esplende, Primavera, os teus fulgores,
Na auréola azul, dos dias teus risonhos,
Tu que sorveste o fel das minhas dores
E me trouxeste o néctar dos teus sonhos!


Cedo virá, porém, o triste outono,
Os dias voltarão a ser tristonhos
E tu hás de dormir o eterno sono,

Num sepulcro de rosas e de flores,
Arca sagrada de cerúleos sonhos,
Primavera gentil dos meus amores!


Augusto dos Anjos - Primavera


 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Esta Velha Angústia

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.

Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa

No Fim

No fim de tudo dormir.


No fim de quê?

No fim do que tudo parece ser...,

Este pequeno universo provinciano entre os astros,

Esta aldeola do espaço,

E não só do espaço visível, mas até do espaço total.



Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa

O Mar é Longe, mas Somos Nós o Vento

O mar é longe, mas somos nós o vento;


e a lembrança que tira, até ser ele,

é doutro e mesmo, é ar da tua boca

onde o silêncio pasce e a noite aceita.

Donde estás, que névoa me perturba

mais que não ver os olhos da manhã

com que tu mesma a vês e te convém?

Cabelos, dedos, sal e a longa pele,

onde se escondem a tua vida os dá;

e é com mãos solenes, fugitivas,

que te recolho viva e me concedo

a hora em que as ondas se confundem

e nada é necessário ao pé do mar.



Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões"

Teus Olhos Entristecem

Teus olhos entristecem

Nem ouves o que digo.

Dormem, sonham esquecem...

Não me ouves, e prossigo.



Digo o que já, de triste,

Te disse tanta vez...

Creio que nunca o ouviste

De tão tua que és.



Olhas-me de repente

De um distante impreciso

Com um olhar ausente.

Começas um sorriso.



Continuo a falar.

Continuas ouvindo

O que estás a pensar,

Já quase não sorrindo.



Até que neste ocioso

Sumir da tarde fútil,

Se esfolha silencioso

O teu sorriso inútil.



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Transcendentalismo

(A J. P. Oliveira Martins)



Já sossega, depois de tanta luta,

Já me descansa em paz o coração.

Caí na conta, enfim, de quanto é vão

O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.



Penetrando, com fronte não enxuta,

No sacrário do templo da Ilusão,

Só encontrei, com dor e confusão,

Trevas e pó, uma matéria bruta...



Não é no vasto mundo — por imenso

Que ele pareça à nossa mocidade —

Que a alma sacia o seu desejo intenso...



Na esfera do invisível, do intangível,

Sobre desertos, vácuo, soledade,

Vôa e paira o espírito impassível!



Antero de Quental, in "Sonetos"

Põe-me as Mãos nos Ombros...

Põe-me as mãos nos ombros...


Beija-me na fronte...

Minha vida é escombros,

A minha alma insonte.



Eu não sei por quê,

Meu desde onde venho,

Sou o ser que vê,

E vê tudo estranho.



Põe a tua mão

Sobre o meu cabelo...

Tudo é ilusão.

Sonhar é sabê-lo.



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sábado, 17 de setembro de 2011

Edgar Allan Poe

Não fui, na infância, como os outros

e nunca vi como os outros viam.

Minhas paixões eu não podia

tirar das fontes igual à deles;

e era outro o canto, que acordava

o coração de alegria

Tudo o que amei, amei sozinho



Edgar Allan Poe

Annabel Lee

Foi há muitos e muitos anos já,

Num reino ao pé do mar.

Como sabeis todos, vivia lá

Aquela que eu soube amar;

E vivia sem outro pensamento

Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,

Neste reino ao pé do mar;

Mas o nosso amor era mais que amor --

O meu e o dela a amar;

Um amor que os anjos do céu vieram

a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,

Neste reino ao pé do mar,

Um vento saiu duma nuvem, gelando

A linda que eu soube amar;

E o seu parente fidalgo veio

De longe a me a tirar,

Para a fechar num sepulcro

Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,

Ainda a nos invejar...

Sim, foi essa a razão (como sabem todos,

Neste reino ao pé do mar)

Que o vento saiu da nuvem de noite

Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor

De muitos mais velhos a amar,

De muitos de mais meditar,

E nem os anjos do céu lá em cima,

Nem demônios debaixo do mar

Poderão separar a minha alma da alma

Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos

Da linda que eu soube amar;

E as estrelas nos ares só me lembram olhares

Da linda que eu soube amar;

E assim 'stou deitado toda a noite ao lado

Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,

No sepulcro ao pé do mar,

Ao pé do murmúrio do mar.



Edgar Allan Poe

terça-feira, 13 de setembro de 2011

No Entardecer dos Dias de Verão



No entardecer dos dias de Verão, às vezes,

Ainda que não haja brisa nenhuma, parece

Que passa, um momento, uma leve brisa...

Mas as árvores permanecem imóveis

Em todas as folhas das suas folhas

E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,

Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!

Fôssemos nós como devíamos ser

E não haveria em nós necessidade de ilusão ...

Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida

E nem repararmos para que há sentidos ...

Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo

Porque a imperfeição é uma cousa,

E haver gente que erra é original,

E haver gente doente torna o Mundo engraçado.

Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,

E deve haver muita cousa

Para termos muito que ver e ouvir ...



Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"

Heterónimo de Fernando Pessoa

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Chuva



Chuva, caindo tão mansa,

Na paisagem do momento,

Trazes mais esta lembrança

De profundo isolamento.



Chuva, caindo em silêncio

Na tarde, sem claridade...

A meu sonhar d'hoje, vence-o

Uma infinita saudade.



Chuva, caindo tão mansa,

Em branda serenidade.

Hoje minh'alma descansa.

— Que perfeita intimidade!...



Francisco Bugalho, in "Paisagem"

Gargalhada



Hornem vulgar! Homem de coração mesquinho!

Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.

Dobra essa orelha grosseira, e escuta

o ritmo e o som da minha gargalhada:



Ah! Ah! Ah! Ah!

Ah! Ah! Ah! Ah!



Não vês?

É preciso jogar por escadas de mármore baixelas de ouro.

Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,

vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,

destruir as lâmpadas, abater cúpulas,

e atirar para longe os pandeiros e as liras...



O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.



Mas é preciso ter baixelas de ouro,

compreendes?

— e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.

E as lâmpadas, Deus do céu!

E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trémulas...



Escuta bem:



Ah! Ah! Ah! Ah!

Ah! Ah! Ah! Ah!



Só de três lugares nasceu até hoje esta música heróica:

do céu que venta,

do mar que dança,

e de mim.



Cecília Meireles, in 'Viagem'

Qualquer Tempo



Qualquer tempo é tempo.

A hora mesma da morte

é hora de nascer.



Nenhum tempo é tempo

bastante para a ciência

de ver, rever.



Tempo, contratempo

anulam-se, mas o sonho

resta, de viver.



Carlos Drummond de Andrade, in 'A Falta que Ama'

Quando Voltei Encontrei os Meus Passos



Quando voltei encontrei os meus passos

Ainda frescos sobre a úmida areia.

A fugitiva hora, reevoquei-a,

_ Tão rediviva! nos meus olhos baços...

Olhos turvos de lágrimas contidas.

_ Mesquinhos passos, porque doidejastes

Assim transviados, e depois tornastes



Ao ponto das primeiras despedidas?

Onde fostes sem tino, ao vento vário,

Em redor, como as aves num aviário,

Até que a asita fofa lhes faleça...

Toda essa extensa pista _ para quê?

Se há de vir apagar-vos a maré,

Com as do novo rasto que começa...



Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

Imagem Minha



Ficas a ler comprazida diante das rosas

silhueta que vislumbrei compus e reanimei.

Tinhas o perfil marcado cruamente pela luz,

as mãos claras no colo, os cabelos despojados

do brilho das cabeleiras soltas, mas juvenis

e sacudidos no início da tarde com alegria.

As páginas balouçavam do mesmo modo que as rosas

porque ao começar a tarde nos dias de Verão

brisas e vapores estendem-se desde o mar

até às margens floridas. No teu banco

adornado por festões de rosas trepadeiras

afastas os olhos do livro não absorta

mas para sempre atraída por inúmeras imagens.



Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Poemas Revistos"

Tudo quanto Sonhei se Foi Perdido



O que sonhei e antes de vivido

Era perfeito e lúcido e divino,

Tudo quanto sonhei se foi perdido

Nas ondas caprichosas do destino.



Que os fados em mim mesmo depuseram

Razões de ser e de não ser, contrárias,

Nas emoções que, dentro em mim, cresceram

Tumultuosas, carinhosas, várias.



Naqueles seres que fui dentro de um ser,

Que viveram de mais para eu viver

A minha vida luminosa e calma,



Se desdobraram gestos de menino

E rudes arremedos de assassino.

Foram almas de mais numa só alma.



Francisco Bugalho, in "Dispersos e Inéditos"

domingo, 4 de setembro de 2011

Bach: Toccata and Fugue in D minor

A Flor do Sonho


A Flor do Sonho, alvíssima, divina,

Miraculosamente abriu em mim,

Como se uma magnólia de cetim

Fosse florir num muro todo em ruína.



Pende em meu seio a haste branda e fina

E não posso entender como é que, enfim,

Essa tão rara flor abriu assim! ...

Milagre ... fantasia ... ou, talvez, sina ...



Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,

Que tem que sejam tristes os meus olhos

Se eles são tristes pelo amor de ti?! ...



Desde que em mim nasceste em noite calma,

Voou ao longe a asa da minha’alma

E nunca, nunca mais eu me entendi ...



Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"



Ao Longe, ao Luar


Ao longe, ao luar,

No rio uma vela,

Serena a passar,

Que é que me revela?



Não sei, mas meu ser

Tornou-se-me estranho,

E eu sonho sem ver

Os sonhos que tenho.



Que angústia me enlaça?

Que amor não se explica?

É a vela que passa

Na noite que fica.



Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'


Fico Sozinho com o Universo Inteiro

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,


Por toda a parte das coisas sobrepostas,

Os andares vários da acumulação da vida...

Calaram o piano no terceiro andar...

Não oiço já passos no segundo andar...

No rés-do-chão o rádio está em silêncio...



Vai tudo dormir...



Fico sozinho com o universo inteiro.

Não quero ir à janela:

Se eu olhar, que de estrelas!

Que grandes silêncios maiores há no alto!

Que céu anticitadino! —

Antes, recluso,

Num desejo de não ser recluso,

Escuto ansiosamente os ruídos da rua...

Um automóvel — demasiado rápido! —

Os duplos passos em conversa falam-me...

O som de um portão que se fecha brusco dóí-me...



Vai tudo dormir...



Só eu velo, sonolentamente escutando,

Esperando

Qualquer coisa antes que durma...

Qualquer coisa.



Álvaro de Campos, in "Poemas"

Carta às Estrellas

Ninguem soletra mais vossos mysterios


Grandes letras da Noute! sem cessar...

Ó tecidos de luz! rios ethereos,

Olhos azues que amolleceis o Mar!...



O que fazeis dispersas pelo ar?!...

E ha que tempos ha já, fogos siderios,

Que ides assim como uns brandões funereos

Que levaes o Deus Padre a sepultar?!



Ha que tempos, dizei! - Ha muitos annos?...

E, com tudo, astros santos, deshumanos,

A vossa luz é sempre clara e egual!



Ha muito, que sois bons, castos, brilhantes!...

- Mas, tambem... ó crueis! sempre distantes...

Como dos nossos braços o Ideal!



António Gomes Leal, in 'Claridades do Sul'

Entre o Luar e a Folhagem

Entre o luar e a folhagem,


Entre o sossego e o arvoredo,

Entre o ser noite e haver aragem

Passa um segredo.

Segue-o minha alma na passagem.



Tênue lembrança ou saudade,

Princípio ou fim do que não foi,

Não tem lugar, não tem verdade.

Atrai e dói.



Segue-o meu ser em liberdade.



Vazio encanto ébrio de si,

Tristeza ou alegria o traz?

O que sou dele a quem sorri?

Nada é nem faz.

Só de segui-lo me perdi.



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"