segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sinto-me Só


Sinto-me só,

Um doído buraco profundo,

Uma sensação de vazio.

Uma falta de sons, ruídos,

Completa vontade de voltar o tempo.

Não pude ser mais poderosa,

Não pude fazer algo,

Não fui suficientemente persistente

Não estava do lado, na hora H.

ser mais um pouco,

O que fui para tantos e tantos.

Não deu,

Não foi,

Se foi,

Ela não volta,

Não adianta tentar escutá-la,

Espiá-la.

Meu bebê se foi.

Minha bonequinha,

Não pude salvar.

Senti-me Tão impotente,

Acho que viria a conseguir conter

Aquela dor,

Aquela pungência sangrando,

Aquele tumor.

Eu, com meu amor conseguiria,

Mas ainda não foi o suficiente.

Eu tanto quis conter,

Antes de todos e mais que qualquer um.

Tem tempo que quis, levá-la no colo,

Não deu tempo de fazer.

Eu deveria já ter que gritar,

Bater pé,

Mostrar que precisava cuidar mais.

Ah! Se eu pudesse mais...

Ah! Se eu tivesse mais...

O que sentia não bastou,

Não conteve,

Não curou,

Não sobreviveu...

Só matou.

Cris Passinato

Adeus

De manhãzinha, qualquer

latido me apunhalava.

Era nosso brinquedo favorito

e foi enterrado no jardim

com o ritual de praxe:

Velas e rezas, choro e flor.

Só não teve missa que

nesse tempo era em latim.

Quando o capim cresceu

regado pelas chuvas

passávamos as mãos nele

dizendo: o pêlo mudou de cor

Astrid Cabral

Poema

Enganar-se a respeito da natureza do amor é a mais espantosa das perdas. É uma perda eterna, para a qual não existe compensação nem no tempo nem na eternidade: a privação mais horrorosa, que não é possível recuperar nem nesta vida... nem na futura!


Soren Kierkegaard

Retrato

"Eu não tinha este rosto de hoje,



assim calmo, assim triste, assim magro,


nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,


tão paradas e frias e mortas;


eu não tinha este coração que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,


tão simples, tão certa, tão fácil:


Em que espelho ficou perdida a minha face?"


Cecília Meireles

domingo, 1 de maio de 2011

Na felicidade ou na infelicidade

... Nem tudo é dias de sol,

E a chuva, quando falta muito, pede-se

-Por isso tomo a infelicidade com a felicidade

Naturalmente, como quem não estranha

Que haja montanhas e planícies

E quando haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo

Na felicidade ou na infelicidade,

Sentir como quem olha,

Pensar como quem anda,

E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,

E que o poente é belo e é bela a noite que fica...

Assim é e assim seja...



Fernando Pessoa