quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Só de Restos se Consagra o Tempo

Só de restos se consagra o tempo, força

cerrada na inutilidade destas

cores campestres, quando o sol em Novembro

escurece os sobreiros. Só de restos me

espera a cerimónia de viver,

trânsito e transigência do silêncio,

ocultado no meu corpo. Só de restos

o trespassa o tempo, máscara e manto. Morro

muito antes da morte, sem saber se os anjos

foram gaivotas hirtas no piedoso

musgos dos rios ou se hão-de ser maçãs

ou ciência, loendros ou lembrança,

inocentes, lúcidos sonos ou oblata

de seda, a deus cedida, em pagamento

da paz. Só do que chega ao fim, se corrompe

e apodrece, se imagina o princípio,

a majestade das coisas, o silêncio

irrevelado que o corpo desconhece.



Orlando Neves, in "Mar de que Futuro"

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