domingo, 3 de julho de 2011

Canção Póstuma

Fiz uma canção para dar-te;

porém tu já estavas morrendo.

A Morte é um poderoso vento.

E é um suspiro tão tímido, a Arte...



É um suspiro tímido e breve

como o da respiração diária.

Choro de pomba. E a Morte é uma águia

cujo grito ninguém descreve.



Vim cantar-te a canção do mundo,

mas estás de ouvidos fechados

para os meus lábios inexatos,

— atento a um canto mais profundo.



E estou como alguém que chegasse

ao centro do mar, comparando

aquele universo de pranto

com a lágrima da sua face.



E agora fecho grandes portas

sobre a canção que chegou tarde.

E sofro sem saber de que Arte

se ocupam as pessoas mortas.



Por isso é tão desesperada

a pequena, humana cantiga.

Talvez dure mais do que a vida.

Mas à Morte não diz mais nada.



Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'

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