terça-feira, 7 de junho de 2011

A Grande Esfinge do Egito

A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro...


Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente

E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...

Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena

Ser o perfil do rei Quéops ...

De repente paro...

Escureceu tudo...


Caio por um abismo feito de tempo...


Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro

E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...



Ouço a Esfinge rir por dentro

O som da minha pena a correr no papel...

Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,

Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,

E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve

Jaz o cadáver do rei Quéops, olhando-me com olhos muito abertos,

E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo

E uma alegria de barcos embandeirados erra

Numa diagonal difusa

Entre mim e o que eu penso...



Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim! ...



Fernando Pessoa

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