terça-feira, 7 de junho de 2011

Redenção



Vozes do mar, das árvores, do vento!

Quando às vezes, n'um sonho doloroso,

Me embala o vosso canto poderoso,

Eu julgo igual ao meu vosso tormento...


Verbo crepuscular e íntimo alento

Das cousas mudas; psalmo misterioso;

Não serás tu, queixume vaporoso,

O suspiro do mundo e o seu lamento?


Um espírito habita a imensidade:

Uma ânsia cruel de liberdade

Agita e abala as formas fugitivas.


E eu compreendo a vossa língua estranha,

Vozes do mar, da selva, da montanha...

Almas irmãs da minha, almas cativas!

II
Não choreis, ventos, árvores e mares,

Coro antigo de vozes rumorosas,

Das vozes primitivas, dolorosas

Como um pranto de larvas tumulares...


Da sombra das visões crepusculares

Rompendo, um dia, surgireis radiosas

D'esse sonho e essas ânsias afrontosas,

Que exprimem vossas queixas singulares...


Almas no limbo ainda da existência,

Acordareis um dia na Consciência,

E pairando, já puro pensamento,

Vereis as Formas, filhas da Ilusão,

Cair desfeitas, como um sonho vão...

E acabará por fim vosso tormento.

Antero de Quental, in "Sonetos"
 

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