sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Teus Olhos Entristecem

Teus olhos entristecem

Nem ouves o que digo.

Dormem, sonham esquecem...

Não me ouves, e prossigo.



Digo o que já, de triste,

Te disse tanta vez...

Creio que nunca o ouviste

De tão tua que és.



Olhas-me de repente

De um distante impreciso

Com um olhar ausente.

Começas um sorriso.



Continuo a falar.

Continuas ouvindo

O que estás a pensar,

Já quase não sorrindo.



Até que neste ocioso

Sumir da tarde fútil,

Se esfolha silencioso

O teu sorriso inútil.



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

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