domingo, 4 de setembro de 2011

Fico Sozinho com o Universo Inteiro

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,


Por toda a parte das coisas sobrepostas,

Os andares vários da acumulação da vida...

Calaram o piano no terceiro andar...

Não oiço já passos no segundo andar...

No rés-do-chão o rádio está em silêncio...



Vai tudo dormir...



Fico sozinho com o universo inteiro.

Não quero ir à janela:

Se eu olhar, que de estrelas!

Que grandes silêncios maiores há no alto!

Que céu anticitadino! —

Antes, recluso,

Num desejo de não ser recluso,

Escuto ansiosamente os ruídos da rua...

Um automóvel — demasiado rápido! —

Os duplos passos em conversa falam-me...

O som de um portão que se fecha brusco dóí-me...



Vai tudo dormir...



Só eu velo, sonolentamente escutando,

Esperando

Qualquer coisa antes que durma...

Qualquer coisa.



Álvaro de Campos, in "Poemas"

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