sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Gargalhada



Hornem vulgar! Homem de coração mesquinho!

Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.

Dobra essa orelha grosseira, e escuta

o ritmo e o som da minha gargalhada:



Ah! Ah! Ah! Ah!

Ah! Ah! Ah! Ah!



Não vês?

É preciso jogar por escadas de mármore baixelas de ouro.

Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,

vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,

destruir as lâmpadas, abater cúpulas,

e atirar para longe os pandeiros e as liras...



O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.



Mas é preciso ter baixelas de ouro,

compreendes?

— e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.

E as lâmpadas, Deus do céu!

E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trémulas...



Escuta bem:



Ah! Ah! Ah! Ah!

Ah! Ah! Ah! Ah!



Só de três lugares nasceu até hoje esta música heróica:

do céu que venta,

do mar que dança,

e de mim.



Cecília Meireles, in 'Viagem'

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