quarta-feira, 31 de agosto de 2011

As Coisas Transitórias

Irmão,


nada é eterno, nada sobrevive.

Recorda isto, e alegra-te.



A nossa vida

não é só a carga dos anos.

A nossa vereda

não é só o caminho interminável.

Nenhum poeta tem o dever

de cantar a antiga canção.

A flor murcha e morre;

mas aquele que a leva

não deve chorá-la sempre...

Irmão, recorda isto, e alegra-te.



Chegará um silêncio absoluto,

e, então, a música será perfeita.

A vida inclinar-se-á ao poente

para afogar-se em sombras doiradas.

O amor há-de ser chamado do seu jogo

para beber o sofrimento

e subir ao céu das lágrimas ...

Irmão, recorda isto, e alegra-te.



Apanhemos, no ar, as nossas flores,

não no-las arrebate o vento que passa.

Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos

roubando beijos que murchariam

se os esquecêssemos.



É ânsia a nossa vida

e força o nosso desejo,

porque o tempo toca a finados.

Irmão, recorda isto, e alegra-te.



Não podemos, num momento, abraçar as coisas,

parti-las e atirá-las ao chão.

Passam rápidas as horas,

com os sonhos debaixo do manto.

A vida, infindável para o trabalho

e para o fastio,

dá-nos apenas um dia para o amor.

Irmão, recorda isto, e alegra-te.



Sabe-nos bem a beleza

porque a sua dança volúvel

é o ritmo das nossas vidas.

Gostamos da sabedoria

porque não temos sempre de a acabar.

No eterno tudo está feito e concluído,

mas as flores da ilusão terrena

são eternamente frescas,

por causa da morte.

Irmão, recorda isto, e alegra-te.



Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

Tradução de Manuel Simões

Nenhum comentário:

Postar um comentário