sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Porque é Tão Ansiosamente que Espero por Ti?

Porque é tão ansiosamente que espero por ti?

Sabias ocultar entre os teus menores movimentos

a lembrança de um corpo e de um ardor sem música

nem esquecimento possível. Quantas cidades

atravessámos, quantos «grandes são os desertos e tudo é deserto»,

quanto alimento para os cães da memória! Deixa-os,

consente o esquecimento, solta com raiva das tuas veias

a música, regressa ao lugar donde partiste. Peço-te,

regressa. Nós nunca acordamos conformes,

nenhuma cifra nos devolverá o número mágico,

vestimo-nos sem convicção e pedimos emprestadas

fórmulas antigas. Da nossa idade

guardámos alguns emblemas, alguns maneirismos.

Acredita-me: é o momento de nos abandonarmos

à necessidade, de açularmos os cães, de sermos nós mesmos

um inquietante rosnido entre as frestas do muro.

Regressemos, não há Ítaca possível, os corpos desfizemo-los

na mesma erosão do seu mágico movimento.

Porque é tão ansiosamente que espero por ti

se nenhuma luz mais cabe no terror de mim?



Luis Filipe Castro Mendes, in "Seis Elegias"

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