sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Coração sem Imagens

Deito fora as imagens.

Sem ti, para que me servem

as imagens?


Preciso habituar-me

a substituir-te

pelo vento,

que está em qualquer parte

e cuja direcção

é igualmente passageira

e verídica.


Preciso habituar-me ao eco dos teus passos

numa casa deserta,

ao trémulo vigor de todos os teus gestos

invisíveis,

à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve

a não ser eu.


Serei feliz sem as imagens.

As imagens não dão

felicidade a ninguém.


Era mais difícil perder-te,

e, no entanto, perdi-te.


Era mais difícil inventar-te,

e eu te inventei.


Posso passar sem as imagens

assim como posso

passar sem ti.


E hei-de ser feliz ainda que

isso não seja ser feliz.


Raúl de Carvalho, in “Obras de Raul de Carvalho”


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