domingo, 28 de agosto de 2011

Pecado Original

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?


Será essa, se alguém a escrever,

A verdadeira história da humanidade.



O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;

O que não há somos nós, e a verdade está aí.



Sou quem falhei ser.

Somos todos quem nos supusemos.

A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.



Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?

Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?



Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas

Sobre o parapeito alto da janela de sacada,

Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.



Que é da minha realidade, que só tenho a vida?

Que é de mim, que sou só quem existo?



Quantos Césares fui!



Na alma, e com alguma verdade;

Na imaginação, e com alguma justiça;

Na inteligência, e com alguma razão —

Meu Deus! meu Deus! meu Deus!

Quantos Césares fui!

Quantos Césares fui!

Quantos Césares fui!



Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa

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