sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A um Homem do Passado

Estes são os tempos futuros que temia

o teu coração que mirrou sob pedras,

que podes recear agora tão fundo,

onde não chegam as aflições nem as palavras duras?


Desceste em andamento; afinal era

tudo tão inevitável como o resto.

Viraste-te para o outro lado e sumiram-se

da tua vista os bons e os maus momentos.


Tu ainda tinhas essa porta à mão.

(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)

Agora já não é possível morrer ou,

pelo menos, já não chega fechar os olhos.


Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"

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